domingo, 9 de julho de 2017

O POETA LUNÁTICO



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A minha crónica na Revista Caliban

A mãe dissera-lhe, em pequeno, que se fosse sozinho na vida seria um cabeça no ar e ele encolhia os ombros e voltava-se para a floresta que se estendia à sua frente, emoldurada na janela do casarão antigo, herança de família que muito custava a manter hoje por força das finanças. A casa fora ganha ao jogo pelo seu bisavô, que roído pelo remorso, distribuíra todo seu dinheiro e propriedades por gente necessitada deixando o imóvel a cargo da família. Do alto da copa de três castanheiros voaram alguns corvos que lhe pareceram abutres atrás do cheiro de carne putrefacta de guerreiros japoneses tombados numa planície. Tinha noção do tamanho fértil da sua imaginação perdida no meio de índios e cowboys da infância, naves espaciais e legionários romanos. Para além da imaginação, fazia versos. A mãe tinha apreço, como dizia habitualmente, por ele se mostrar um rapaz sensível, mas temia que isso se tornasse numa imprudência. A poesia, com o que ele deitava cá para fora, podia ser um óptimo divã para psicanálise, mas colocava-o em risco ao expor de forma tão desabrida o que lhe ia na alma e poderia acabar por ter que pagar uma tremenda factura. Em pequeno, era um rapaz muito linear, contido nas palavras que não fossem poéticas. Gostava de ficar, aos domingos de manhã, a ver documentários sobre bichos, florestas exóticas, populações indígenas e logo a seguir ao almoço, lia as tiras de banda desenhada dos jornais depois do pai fazer as palavras cruzadas. Durante a tarde dormitava e lia uns versos de Sophia, à noite, para tirar o fastio das letras via um episódio do Homem Aranha no canal dois. Nas suas leituras e pensamentos sobrava espaço para pensar na morte por encontrar nela uma harmonização, uma espontaneidade disponível e democrática. A sua dedicação ao estudo da poesia e da morte, o seu interesse em forças ocultas e temas de baixo relevo no pensamento filosófico cresceu com a idade adulta e advinha da sua convicção de não se sentir propriamente dotado para o que quer que fosse, interessando-se por aquilo que os outros consideravam não ter interesse. Isso trazia-lhe alguma auto-estima pela superioridade do seu gosto pelo artístico e pelo sublime. Achava que ser normal era muito mais difícil e dava muito mais trabalho, sendo mais fácil abandonar-se a uma estrutura minimalista, outras vezes achava que era precisa muita coragem para se sentir perdido e que a realidade era, por si só, suficiente para o fazer perder tempo e que ele só inventava coisas porque estava desempregado, era alarve, insaciável e manifestamente indecoroso, contendo-se para não ficar refém da felicidade.